Claudio Lachini
Jornalista e Escritor
Colunista de Economia Interativa
Essa história deveria se chamar “de como Brian Gold, Helio Gama Filho, Klaus Kleber e o autor arriscaram a vida nas enchentes da Primavera de 1975, quando tentaram cruzar o rio Inn, cujas águas do degelo alpino levaram-lhe uma ponte”.
É verdade também: caduco, e antes que os últimos lampejos da memória e do raciocínio evolem quais fumaças de meus falecidos cigarros, reúno-me com Liev Tolstói, que em outubro de 1805 aquartelava-se em Braunau, próximo à fronteira da Baviera e não muito distante das águas baixas do Inn, antes de desaguar no Danúbio. Aqui, devo explicar que, tendo espaçado em muito minha ventura de “sexogenário” (e como septuagenário) dedico-me a reler os livros que encantaram minha mocidade colatinense e, nesses primeiros meses de 2012, delicio-me no “Guerra e Paz”, nesta primorosa tradução direta do russo feita por Rubens Figueiredo (São Paulo, Cosac Naify, 2 vols., 2536 páginas, 2011).
Tolstói encontro na paz de meu escritório, mas naquele ano de 1805, que foi o da batalha de Austerlitz, o apogeu de Napoleão Bonaparte, digamos “o gênio” arrasador das tropas austro-russas, o romancista ambientou lá, naquele território de pomares, cercas de pedras e montanhas distantes, o quartel general do comandante em chefe Kutúzov. Já os jornalistas brasileiros mencionados “estacionaram” não muito distantes do aquartelamento russo, embora separados por quase dois séculos, em Salzburgo, no início de maio de 1975, sob a batuta de Mauro Ribeiro na cobertura de um evento mundial promovido pelo brilho incansável de Mário Garnero.
Se os russos vingaram-se de Napoleão em 1812 (cujo segundo centenário pode ser lembrado neste ano em este século estapafúrdio que vivemos) e praticamente decretaram o seu fim, foram os ingleses que lhe deram o golpe mortal. Nosso inglês nessa história é Brian Gold, que comigo alugara aquele automóvel que só um de nós dois podíamos dirigir, em confiança do seguro. “Seguro” é a arte da desconfiança ou de como o segurador ludibria o segurado e este moureja para não ser enganado! E Brian, o nosso inglês, por pouco, muito pouco mesmo, poderia ter nos liquidado! Tinha fama de motorista distraído, o inglês, e prova tivemos de outra feita, em Londres, sua cidade natal, Matías Molina e eu, quando aceitamos sua oferta de nos levar ao cemitério de High Gate, em visita aos túmulos de Marx e Spencer! Ele tomou o sentido da esquerda em contra-mão de via única!
“Freie Brian! Pare que não tem ponte!”
Pois bem, naquela manhã de 6 de maio de 1975 deixamos a cidade de Mozart com destino a Zurique, onde, no dia seguinte, tomaríamos um aeroplano para Londres. Klaus Kleber e eu, baleados da noite anterior, viajávamos no banco de trás. Brian ao volante corria desenfreadamente aos brados de “devagar” de um Hélio Gama sensato e intimidado, eis senão quando abro os olhos e vejo o rio Inn fluindo em seu curso, e nossa estrada que findava uns 300 metros adiante, onde deveria ter existido uma ponte que deixou a descoberto um pequeno precipício. Foi o tempo de gritar para o inglês:
- “Freie Brian! Pare que não tem ponte!” Digamos que Brian nunca foi reconhecido pela sua rapidez, mas sim pelo seu britânico humour e cavalheirismo. Ele obedeceu e parou o automóvel não mais do que a três metros das pedras do leito daquele rio nascido na Suiça, viajado pela Áustria e Alemanha e bebido pelo Danúbio. Hélio Gama abriu a porta do carona dianteiro, onde viajava, desceu e pediu para que lhe abrissem o porta-malas. Brian mais uma vez obedeceu e o gaúcho valentemente pegou seu pelego, sua bombacha, sua cuia e seus trecos, sentou-se na proteção do acostamento e declarou:
- “Podem seguir. Com o Brian guiando, não vou!”
Serenados os ânimos, lá fui eu motorista de plantão a subir em direção de Santo Anton e Stuben, onde gozaríamos dos prazeres da “Butiquinópolis” culminante entre os Alpes ocidentais e orientais, e depois seguir viagem para uma noite em Vaduz, a graciosa capital de um Principado de 30 mil bancos e empresas dedicadas à tapeçaria de seus engenhos. Alí, à margem do rio Reno, vive um Paraíso fiscal que parece desmentir a fugacidade do tempo.
Avisem no Adauto Botelho, por favor, que há duzentos anos, em Borodino e Moscou aquele extraordinário militar francês de origem toscana, nativo da Corsega, e que jamais abandonou o navio, cazzo, começou a retirada que o levaria ao desastre de Waterloo, em 1815.
