Vô, eu resistia ao tempo

Ultimamente, o desgraçado, estúpido e implacável inimigo tem-me segredado ao ouvido uma sugestão das mais capciosas: “Escreve tuas memórias!” Continue lendo

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Edmilson Conceição
Jornalista e Colunista de Economia Interativa
edorcon@uol.com.br

Eu já vivi matando o tempo. Matar o tempo. A expressão bonita significa, na terra catarinense, ficar à toa, sem fazer nada.

Mal sabia eu que o tempo não se mata. Nada o detém. Nem o espaço, nem a velocidade, nenhuma fórmula. Ouso contestar o sábio: já que tudo é relativo, o tempo é absoluto. Nada o divide, nada o multiplica, nada o iguala – as operações matemáticas são muito, muito relativas.

Passei anos tentando enganar o maldito tempo. Não houve jeito. Tentava não chamar o filho de meu filho pelo nome simples de “neto”, para ver se ninguém percebia que o tempo estava vencendo a mim: eu já era avô. Cadê que adiantou? O menino também, meio intrigado no começo, depois divertido com as minha excentricidades, se acostumou a me tratar pelo meu apelido familiar, nunca por “avô” ou ““. (Que se danem os que me vêm com o argumento de almanaque, que ser avô é a suprema felicidade, é ser pai duplamente etc etc)

Minha artimanha só me garantiu um surdo rancor familiar, capitaneado pela minha nora, mãe do filho do meu filho. A pequena trapaça que eu endereçava ao tempo transformou o pai da minha nora no “verdadeiro” e “único” avô do garoto. Ainda bem que o objeto da disputa, sendo filho do meu filho, portanto inteligente e bem-humorado, percebeu logo a estúpida jogada que fazíamos em torno dele. Cresceu incólume, sem traumas. Divertia-se.

O menino achava o máximo ter um avô de verdade – eu mesmo – que adorava brincar com ele, contar histórias, dividir descobertas, mas… que rejeitava o título. Enquanto isso, o outro avô só ostentava o rótulo.

Nesse meio tempo, me distraí. E ele, o tempo, fazia das suas comigo. Levou meus outrora orgulhosos cabelos, deixando-me, sem tirar nem pôr, com a cara de meu próprio avô! Calvo e com cara de mau, por causa de um sobrecenho cerrado. Atrás do autoritarismo irredutível; e da moralidade férrea do velho escondia-se um estróina, morreu enganando minha avó, trepado em cima de uma garota menor de idade.

Com a cara do velho! Justo eu, que sou manhoso mas não traio nem troco a minha patroa… Tenho certeza de que o tempo dá gargalhadas às minhas custas.

Eu resistia ao tempo. Quando pude me aposentar, devido a um insidioso glaucoma, não quis. Não aceitei, finquei pé contra os anseios de minha mulher, fiquei injuriado. Aleguei para todo o mundo um orgulho, o de não querer ser inválido. Na verdade, provei mesmo que eu não era completamente inválido. Fiz muitos trabalhos de valor, depois da minha meia cegueira. Mas a principal e verdadeira razão de rejeitar o retiro era que a aposentadoria era coisa de velho.

Anos mais tarde, quando precisei dramaticamente do mísero amparo social concedido como esmola pelo Estado, não houve jeito de conseguir. Eu tinha sido compulsoriamente desalojado do sistema. Intimamente me alegrei. Era como se o tecido social tivesse reconhecido o meu viço, o meu andar sobranceiro, meu vigoroso aperto de mão, minha juventude, enfim. Por isso, me recusava o galardão de membro da intrépida Terceira Idade.

Mas o tempo não parou de me fustigar com suas tiradas sem graça. Um dia, como se já não bastasse ter apenas 1m70 de altura, fui humilhado num consultório médico. A doutora declarou solenemente, antes de registrar na minha ficha: 1m66!

- Mas como? – protestei energicamente. – Eu sempre tive 1m70! Pode ver no meu certificado de alistamento mililitar

- É… – comentou a esculápia, como quem fosse dona de toda a verdade do universo. – É a idade… Nós todos encolhemos. É este o destino…

Outro dia, minha filha – já adulta! com os diabos! – caiu das nuvens olhando as costas de minha mão:

- Olha! Está toda enrugada, pai. E tem manchas!

Retirei rápido a mão, como se a tivesse posto no fogo.

Vez por outra, o tempo se vale da petulância dessa minha pequena para me lembrar que ele, o tempo, está vencendo todos os assaltos contra mim. Eu deitado, não houve como recusar a boca para que minha filha a examinasse. A insolente esquadrinhou, investigou detidamente o interior da minha cavidade oral. Olhou em cima, olhou embaixo. Procurava por certo os sinais de uma dentadura. Havia uma pequena prótese. Trabalho perfeito de um odontólogo pago a peso de ouro e marfim. Minha filha não percebeu o remendo. Graças a Deus. Desta vez eu driblara o tempo.

Ultimamente, o desgraçado, estúpido e implacável inimigo tem-me segredado ao ouvido uma sugestão das mais capciosas: “Escreve tuas memórias!. Você tem uma história longa e bonita pra contar…” Eu tento afastar a tentação. Mas o tempo, como uma serpente, prossegue: “De qualquer jeito, você sendo autor, pode contar as mentiras que quiser. Escreve!”

Safado! Eu sei o que ele quer. Que eu me denuncie. Banana, para ele! Não escreverei memória alguma. Além do mais, por falar nisso, esqueci de tomar hoje as pílulas que tão carinhosamente me receitou a minha geri… cardiologista.

Este lapsus linguae foi mais uma das estripulias do tempo, é óbvio.

Eu ando mais calmo, mais compreensivo. Mas se eu pudesse, se achasse graça nisso, eu ia à forra. Eu sumo. E levo ele comigo. Quero ver se ele conseguiria mais passar por mim.

Enfim, de verdade, ainda que eu morra na empreitada, eu mato o tempo.

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